O que significa o "Fora Sarney"
11 de agosto de 2009
O "Fora Sarney" é a palavra de ordem da direita para solucionar a crise no Senado. É evidente que se trata de uma briga com vistas às eleições de 2010, que expressa uma crise dentro da própria burguesia, para a qual as denúncias de corrupção servem de cobertura.
Se Sarney deve sair porque é corrupto, quem poderá substituí-lo? Collor? A oposição "ética", de Jereissati e Arthur Virgílio? É uma falsa solução, pois a corrupção é parte intrínseca do funcionamento do regime e das suas instituições.
O próprio eco que tem dentro da burguesia, da imprensa capitalista, dos parlamentares mostra que não tem um conteúdo revolucionário. Quando da crise do governo Collor, em 1992, a burguesia relutou em aceitar a palavra de ordem de "Fora Collor", tanto a ala PSDB-DEM, que agora exige a saída de Sarney, como o próprio PT, procurando sempre a maneira menos custosa de resolver o problema.
Collor era, no entanto, o eixo do regime político e sua derrubada, com a convocação de eleições gerais, poderia levar caminho para uma crise revolucionária. A crise do governo Collor e sua derrota poderiam significar, levada a luta adiante de maneira conseqüente, uma reversão ao seu plano de profundo ataque à classe trabalhadora.
O ataque a Collor era um ataque frontal ao regime político de conjunto, o ataque a Sarney, isoladamente, ao contrário, é um ataque de uma ala da burguesia a outra, aliada a Lula.
A classe operária e suas organizações não devem ficar a reboque de nenhuma das alas da burguesia, mas deve ter uma posição independente, que responda aos seus interesses de classe.
Em primeiro lugar é preciso ter claro que a crise não se resolverá por dentro do Congresso Nacional e que, portanto, a saída de uma pessoa e a simples substituição por outra é inócua. Assim como a saída de Renan Calheiros, na época em que se abriu a crise em torno dele, não mudou em nada a situação, e cá estamos novamente com outra crise, agora envolvendo Sarney, a saída deste por si também não pode alterar nada de fundamental.
A solução só pode se dar pela intervenção da classe operária e das massas na situação. É preciso reivindicar, a extinção do próprio Senado, órgão elaborado para servir de trava de segurança do regime, a saída de todos, colocando um programa da classe trabalhadora, da cidade e do campo, que agregue as reivindicações camponesas, estudantis, democráticas etc.
Quem é José Sarney?
O perfil do aliado nº 1 do PT
Veja aqui quem é José Sarney, presidente do Senado e maior aliado do governo Lula, apoiado integralmente pela bancada petista e a base aliada do governo e centro do escândalo de corrupção que está colocando o regime político em crise
8 de agosto de 2009
aJosé Sarney de Araújo Costa, o José Sarney, é natural do Maranhão, tendo nascido na cidade Pinheiro no dia 24 de abril de 1930. Sua carreira política teve início em 1954 quando ingressou na UDN (União Democrática Nacional), o partido direitista e pró-imperialista que foi a ala civil do golpe militar de 1964, assumindo o cargo de suplente de deputado federal.
Depois de suplente, Sarney foi eleito como deputado federal por dois mandatos, entre os anos de 1958-1965, se tornando um dos líderes da mesma da UDN antes do golpe.
Curiosamente, a UDN, partido do atual implicado no mega escândalo de corrupção, era o partido "moral" da época, ao estilo do que fez o PT e hoje faz o Psol, acusando a ala esquerda da burguesia, o bloco PSD-PTB, de corrupção para fazer demagogia, uma vez que as suas propostas políticas, econômicas e sociais se opunham aos interesses das massas. A inflamada retórica moral, que levou Vargas ao suicídio em 54, não impediu que os udenistas, nos governos militares, fossem protagonistas dos maiores casos de corrupção que o país já viu até hoje.
Após o golpe militar e a publicação do AI-2, com a imposição do bipartidarismo, em 65, Sarney entrou na Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido oficial do regime militar.
O governador biônico dos militares
Foi durante o regime militar que o atual presidente do Senado consagrou sua carreira política, sendo governador biônico indicado pelos militares no estado do Maranhão entre os anos de 1966-1971, assumindo posteriormente o cargo de senador, nos anos 1971-1985, quando se tornou nacionalmente um dos principais representantes do regime militar já como presidente da Arena. Enquanto os militares assassinavam e torturavam, Sarney fazia discursos em defesa do regime no Congresso fantoche.
Em 1979, Sarney participou da fundação do PDS (Partido Democrático Social), sendo seu presidente, partido este que lança o nome de Paulo Maluf para disputar as eleições indiretas. Sarney abandona o PDS e, com o objetivo de disputar as eleições, ingressa no PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), partido sucessor da Arena. Já no PMDB é indicado como vice-presidente na chapa de Tancredo Neves e quando esse morre, assume a presidência da República.
Nenhum dos dois era do PMDB. Sarney mesmo em declaração alega que entrou na composição com o PMDB como elemento de garantia da continuidade dos interesses da ditadura militar na composição do governo. Foi escolhida, de comum acordo com os militares, a composição mais direitista possível para governar o País em nome da "democracia".
Em 15 de abril de 1985 Sarney assume a presidência da republica após a morte de Tancredo e graças a um acordo com a ditadura militar, já que com a morte do presidente gerou-se uma crise dentro da burguesia para ver quem assumiria a presidência, se seria o seu vice ou o presidente da Câmara dos Deputados, na época Ulysses Guimarães. Sarney foi escolhido com o apoio do general Leônidas Pires Gonçalves, então ministro do Exército.
Governo assassino de trabalhadores
O governo de José Sarney ficou marcado pela enorme crise econômica, que inclusive evoluiu para um quadro de hiperinflação histórica e moratória no país, com constantes greves e protestos da população.
Em 1985, o governo Sarney lança o Plano Cruzado cujo objetivo central é o de quebrar o ascenso grevista. Este plano foi uma tentativa de estabilização da inflação através de um enorme confisco salarial da classe operária, já que entre as medidas adotadas pelo Plano Cruzado estava o congelamento geral de preços por doze meses, bem como dos salários. Os preços foram congelamentos pelo seu pico e os salários pela média, em nome do combate à inflação.
No Plano Bresser de Sarney em 1986, plano posterior ao Cruzado depois da derrota daquele, Sarney decretou o congelamento dos salários por 60 dias e a inflação chegou ao patamar em dezembro daquele ano de 366%. O plano que sucedeu o Bresser, plano Verão colocou o País à bancarrota no final do governo Sarney, quando entre fevereiro de 1989 e março de 1990, a inflação chegou a 2.751%.
O governo Sarney foi quebrado de fato pela mobilização revolucionária da classe operária com dezenas de milhares de greves, acabou consagrando o governo de Sarney como um dos mais impopulares da história do país. Enfrentando inúmeras greves (mais de 15 mil greves somente no ano de 1985), Sarney tentou reprimir as mobilizações operárias
Em um dos episódios mais altos desta repressão em 1988 manda o Exército invadir a CSN e reprimir a greve operária, assassinando três operários.
Em 1988 Sarney patrocina na Constituinte o centrão, o bloco dos reacionários parlamentares ligados à ditadura e da direita.
Ficou conhecida a palavra de ordem de "Xô, Sarney" entre o funcionalismo público dá época.
Além de apoiar o governo Collor, Sarney assume a presidência do Senado Federal de 1995 a 1997 durante mandato de FHC, sendo Sarney um dos principais apoiadores da política de privatização tucana e de ataques à classe operária.
A privatização do setor de telecomunicações no ano de 1996, uma das prioridades de FHC, foi aprovada com facilidades no Senado com o apoio de Sarney.
De 2003 a 2005, Sarney voltou a ocupar o Senado. Em fevereiro de 2009, Sarney voltou novamente à presidência da casa.
Maranhão: capitania hereditária de José Sarney
Sarney, do ponto de vista social é um latifundiário, sendo o chefe da oligarquia do Maranhão uma das mais retrogradas do País.
Sarney á a personificação da idéia de que o País é um estado quase feudal, sendo o Maranhão uma verdadeira capitania hereditária dos Sarney.
Naquele estado Sarney é dono de três emissoras e dezenas de retransmissoras de televisão Rede Mirante, representante da Rede Globo. É dono também de pelo menos seis emissoras de radio: Rádio Mirante AM e FM e do jornal O Estado do Maranhão.
Pai da atual governadora do estado, Roseana Sarney, do deputado federal Sarney Filho e do empresário Fernando, indicou quase todos os últimos governadores do estado nas últimas décadas.
Entre 1970 e 2004, exceção feita apenas por Oswaldo da Costa Nunes Freire (1974-79), Sarney indicou todos os governadores maranhenses sendo duas vezes governadora sua filha Roseana Sarney, de 1995 a 2002 e a partir deste ano (veja o box ao lado).
Jackson Lago, governador de 2007 a 2009 foi o único em 43 anos a não pertencer ao bloco de Sarney e foi deposto pelo TSE por abuso de poder e compra de votos durante as eleições de 2006, assumindo por indicação do tribunal novamente Roseana Sarney.
José Sarney é o homem mais importante da base aliada do governo Lula, sendo liderança do PMDB ao lado de Renan Calheiros de Alagoas ex-presidente deposto no Senado. Lula centralizou todos os senadores do PT para defender o oligarca da ameaça de renúncia no Senado para manter a aliança eleitoral com o PMDB sendo este o partido essencial de apoio ao PT e Lula nas eleições. O presidente do Senado é, também, a personalidade política burguesa com o maior trânsito entre os militares, como ficou evidente na crise da aviação no ano de 2007.
Lula e o PT defendem uma das figuras mais impopulares e antioperárias da história do País, e a ala direita do Congresso Nacional que se aproveita da impopularidade deste, defende a renúncia de Sarney para forçar alguma vantagem nas eleições de 2010 graças à crise desta no Congresso e no Senado.
A crise atual do governo Lula fica claramente retratada como sendo um resultado direto da política de colaboração de classes, que nunca tem fronteiras à direita e da intregração desse partido ao estado capitalista como um dos seus braços.
A direita levanta, no entanto, a corrupção menor de Sarney enquanto a biografia de um dos maiores oligarcas e inimigos da classe trabalhadora é a sua maior ficha criminal, comum a de toda a direita de Brasília, também apoiadora dos mais reacionários regimes desde a ditadura e do governo das oligarquias em todo o País.
Na próxima edição publicaremos o perfil da "ética" oposição de direita do governo.