Rebelião popular no País modelo do capitalismo nos Bálcãs
O assassinato de um estudante de 15 anos pela polícia em Atenas transformou-se num amplo movimento político contra o governo direitista do premiê Costas Karamanlis
10 de dezembro de 2008
A Grécia vive dias de verdadeiras batalhas campais que podem custar a derrubada do governo. Novos protestos violentos foram registrados poucas horas antes do sepultamento do jovem estudante de 15 anos assassinado pela Guarda Especial da Polícia no sábado (6) em Atenas, sendo o estopim para a maior mobilização política do país desde o fim da ditadura militar.
As cifras não são oficiais. Estima-se que mais de 200 pessoas tenham sido presas, 40 carros queimados, mais de dez edifícios depredados e incendiados em todo o país e dezenas de feridos, alguns deles em estado grave. Esta é a maior revolta popular dos últimos 35 anos no país. "Não estamos mais contando. Os incidentes não podem ser contabilizados", disse o chefe da polícia (AFP, 9/12/2008).
Cerca de 300 manifestantes que realizavam uma passeata estudantil próximo ao Parlamento grego lançaram paus e pedras contra os policiais. A polícia é o primeiro alvo dos manifestantes, pois foi durante um protesto no fim de semana que um agente atirou contra o jovem Alexandros Grigoropoulos, atingindo-o mortalmente no tórax.
Atenas e Salônica (no Norte) são os maiores centros urbanos do País e palco das maiores manifestações que não cessam desde o sábado (6). Em Atenas, uma manifestação com milhares de pessoas convocada pelo Partido Comunista foi reprimida pela polícia, resultando em dezenas de feridos.
No centro da capital, uma enorme árvore de natal instalada na praça central de Syntagma foi incendiada e os jovens cantaram músicas natalinas em torno da imensa fogueira. Além da árvore, carros, estabelecimentos comerciais - principalmente bancos - e muitas latas de lixo também foram incendiados. Quase 200 bombeiros foram mobilizados para apagar as labaredas de fogo que iluminaram a noite do centro de Atenas.
No domingo (7), cerca de 20 mil pessoas realizaram uma manifestação próxima à Sede Central da Polícia de Atenas, que logo em seguida transformou-se num cenário de guerra durante a madrugada.
Além disso, a Universidade Politécnica, a Faculdade de Direito e a Universidade de Economia de Atenas foram ocupadas.
A ex-ministra da Educação, Marietta Yannakou, que renunciou ao seu cargo após as mobilizações estudantis de 2006/2007 acusou "trotskistas e anarquistas de meia idade de levar a cabo os distúrbios através da ocupação da Faculdade de Direito em Atenas".
No porto de Salônica, manifestantes - a maioria deles estudantes - atacaram com coquetéis molotov os policiais, que usaram gás lacrimogêneo para dispersar o grupo. Na segunda maior cidade grega, os estudantes também enfrentaram a tropa de choque e usaram uma universidade para armazenar um arsenal de coquetéis molotov.
Nas cidades de Ioannina e na ilha de Corfu, grupos de estudantes também protagonizaram ataques contra delegacias, bem como nas cidades de Rodes, Creta e Pireus.
O ministro do Interior grego, Prokopis Pavlopulos, disse à imprensa local que as "ações violentas" não são justificadas e reiterou que os responsáveis "serão castigados de forma exemplar". As "ações violentas", no entanto, partiram das forças de repressão do Estado e não da população.
Alexandros Grigoropoulos foi enterrado nesta terça-feira (9) em Atenas, às 15h30 (11h30 em Brasília). Centenas de pessoas se reuniram em torno do cemitério. Novos distúrbios foram registrados ao logo dia. Centenas de manifestantes jogaram pedras e pedaços de pavimento contra veículos e vitrines de lojas
Partidos políticos de esquerda, organizações de direitos humanos, sindicatos e entidades estudantis estão convocando mais protestos contra o governo do reacionário primeiro-ministro, Costas Karamanlis, no partido de direita Nova Democracia.
"Raiva é o que eu sinto pelo que aconteceu. Raiva", disse um estudante que está participando das maiores mobilizações que a Grécia já viveu em 35 anos.
"Estamos vivendo uma revolução social. Queremos derrubar este governo e suas políticas. Os protestos vão durar tanto quanto for necessário", disse Panagiotis Sotiris, porta-voz de uma coalizão de grupos de esquerda que ocuparam a faculdade de direito de Atenas (BBC, 8/12/2008).
Crescimento para os capitalistas
Apesar do considerável crescimento econômico obtido nos últimos anos, principalmente quando se integrou à União Européia, a Grécia continua sendo um dos países mais pobres da Europa. Ainda que seja considerado o modelo de capitalismo na degradada região dos Bálcãs, a política de privatizações e reformas levadas pelos sucessivos governos desde a década de 90 desembocou na crise econômica mundial. O setor industrial grego corresponde a cerca de 20% do PIB. A agricultura gera 4% e o turismo continua sendo uma fonte vital de renda, correspondendo até 15% do PIB (Produto Interno Bruto).
A falta de empregos - fundamentalmente entre a juventude - e os inúmeros escândalos políticos de corrupção contribuiu para lançar mais gasolina na fogueira. O desemprego entre os jovens no ano passado foi de 22,9%, o pior nível de toda a União Européia.
Em uma reunião emergencial, Costas Karamanlis encontrou-se com o presidente Karolos Papoulias e líderes de partidos de oposição no Parlamento para discutir uma maneira de dissolver os protestos que se espalham pelo país a fora. Com medo da situação, o premiê afirmou que não vai enviar soldados do Exército para reprimir o povo grego, o mesmo povo que derrubou a ditadura militar em 1974.
O assassinato de Alexandros Grigoropoulos aconteceu no bairro de Exarchia, no centro de Atenas, um dos mais politizados da Grécia. A região é conhecida pelos grupos anarquistas e socialistas, além dos squats (ocupações) mantidos por punks. É historicamente o berço do movimento estudantil iniciado em 1973 contra o regime militar instaurado em 1967.
As origens do capitalismo grego
A região dos Bálcãs é centro de disputa permanente entre o imperialismo. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial e o auge da Guerra Fria a região foi modificada, reduzida e dizimada por inúmeras guerras, massacres e perseguições contra os povos. Assim como na América Latina, entre as décadas de 60 e 70 vários golpes de Estado orquestrados pela CIA foram instaurados também nos Bálcãs.
Na Grécia, o regime militar tomou o poder em 1965, tendo como conhecido fato político o assassinato em 1963 do nacionalista de oposição Gregoris Lambrakis, então deputado pela União Democrática Esquerdista. Era um renomado professor da Escola de Medicina da Universidade de Atenas. O assassinato ocorreu durante um comício em plena praça pública contra a instalação de uma base para mísseis norte-americanos. No final do ato, um veículo invadiu a praça e um homem a bordo atingiu a cabeça de Lambrakis com um cassetete, matando-o.
O magnicídio foi realizado por grupos de extrema-direita pagos pelos militares para agredir e assassinar dirigentes políticos com viés de esquerda, denúncia que gerou uma enorme revolta em cadeia. Os partidários de Lambrakis passaram a pintar nas ruas a letra Z, inicial da palavra ZEI (que se pronuncia ZI) e que em grego significa "Ele vive". Esta demonstração levou também o nome do romance político de Vassilis Vassilikos e, pouco depois, gerou o clássico do cinema político dirigido pelo cineasta Costa-Gravas "Z", de 1969.
As origens da Grécia moderna datam do começo do século XX, quando um plebiscito restaura a monarquia e George II reassume o trono em 1922. Após um curto período de exílio por causa da derrota sofrida na Primeira Guerra Mundial. Um breve período republicano (1924 e 1935) é abortado com a reconstituição de George II no poder.
Durante a Segunda Guerra, a Grécia é ocupada pela Alemanha, forçando o rei a se exilar em Londres. Porém três anos depois, em 1944, a União Soviética expulsa os alemães de todo os Bálcãs e George II reassume o regime. Seu governo abriga o conjunto da extrema-direita e uma guerra contra a intervenção soviética eclode dentro do país. A direita conta com todo apoio dos EUA e derrota os soviéticos em 1949, dando início às perseguições políticas, seqüestros e torturas contra os comunistas. A partir daqui o imperialismo investe no país como um importante enclave na região, mas a disputa política permaneceu ativa até que em 1955 personifica-se nas figuras de Constantinos Karamanlis (do partido conservador) e Andreas Papandreou (do partido socialista). Com o apoio dos EUA, militares liderados pelo líder conservador dão o golpe de Estado em 1967 e instauram uma ditadura militar.
Junto à abolição oficial da monarquia pelos militares em 1973, um levante de massas de caráter revolucionário depõe o regime e o governo é obrigado a restaurar a democracia burguesa. Mas o mesmo Karamanlis continua na chefia do Estado e leva alguns militares a julgamento. Ele é eleito presidente pelo voto direto em 1980.
Acúmulo da crise
O assassinato do jovem estudante, ainda que trágico e revoltante, é um acontecimento menor comparado à enorme crise política que se acumula no País. Não é por acaso que o governo está mobilizando todos os seus 45 mil policiais, a maior operação repressiva na Grécia desde as Olimpíadas em Atenas em 2004 - a primeira edição dos Jogos pós-11 de setembro.
O governo está cada vez mais isolado politicamente e a própria burguesia parece estar rachada. Muitos órgãos de imprensa usam as manifestações para atacar o governo por "deixar o país nas mãos do anarquismo". O diário Kathimerini, por exemplo, pede a demissão de todo o Executivo. O Elefteros Typos, o Elefteotipia e o Ta Nea também são unânimes em afirmar que o governo não tem capacidade para enfrentar a situação: "Somos uma sociedade sem governo", diz uma das manchetes.
As manifestações ultrapassam os limites da Grécia. Houve protestos em frente a algumas embaixadas na Europa. A maior delas aconteceu no Consulado grego em Berlim, onde dezenas de manifestantes ocuparam a representação diplomática por oito horas.
Em Paris, cerca de 80 manifestantes ocuparam o primeiro andar do Consulado. "Esta é uma manifestação simbólica. Há 20 estudantes dentre e outros 60 fora". Manifestantes se concentraram também em frente às embaixadas em Londres e Nicósia, capital do Chipre.
Além do levante popular conduzido pelos estudantes gregos, o governo teme a iminência das greves se repercutirem por todo o país. Várias categorias de trabalhadores e sindicatos convocaram uma greve geral contra a reforma trabalhista e contra a crise econômica.
A burocracia da Confederação Geral de Trabalhadores da Grécia (GSEE), que representa 1,5 milhão de trabalhadores do setor público e privado, e a Administração Suprema dos Sindicatos dos Trabalhadores Civis Gregos (ADEDY), que conta com cerca de 500 mil filiados, está totalmente na defensiva diante da tendência dos trabalhadores de sair em greve e se juntar à luta.
Os professores universitários - cujas universidades foram ocupadas - também apóiam os manifestantes em protesto à morte do estudante e decretaram greve.
Para fechar o quadro de mobilizações, o oficialista Partido Socialista (PASOK) convocou uma marcha pacífica de pais e professores contra o governo.
As mobilizações expressam o fracasso do regime burguês e do modelo de capitalismo nos Bálcãs. Este é o resultado espontâneo de décadas de repressão disfarçado de crescimento econômico.
O conjunto das organizações operárias e populares deve dar todo apoio a estas mobilizações. É necessário acrescentar que algumas organizações da esquerda pequeno-burguesa não devem repetir o mesmo erro cometido na França durante as revoltas protagonizadas pela população árabe dos guetos parisienses. Neste episódio, os atos promovidos após a morte de dois jovens de origem argelina que estavam fugindo de uma perseguição policial foi "discriminada" pela esquerda pequeno-burguesa por não ter um suposto "objetivo político", por não representar a "vanguarda" do movimento de massas.
Os jovens estudantes gregos que se mobilizam contra a repressão policial e o governo são ainda "acusados" de serem filhos de médicos, engenheiros e de famílias proeminentes longe das periferias. São acusados de ter uma "fúria selvagem" e "sem cor política". Tais declarações apareceram em alguns jornais gregos e parte desta mesma esquerda centrista reproduz na forma de uma capitulação política. Foram, no entanto, dentro de universidades como a Escola Politécnica e a Faculdade de Direito de Atenas que o movimento estudantil atuou decisivamente para a derrubada do regime militar.
O movimento operário deve repudiar estas posições que só servem ao regime burguês e se somar às manifestações, impulsionando os protestos nos bairros operários em torno de um programa de reivindicações que dizem respeito às necessidades dos trabalhadores, da juventude e da população necessitada. Devem se organizar em torno de um programa independente e revolucionário contra o governo do direitista Caramanlis, contra a burguesia e contra a propriedade privada, reivindicando um governo próprio dos trabalhadores e dos demais setores explorados.