O balanço dos dirigentes do Psol
Quem semeia ilusão, colhe decepção
Depois de uma campanha burguesa e reacionária que serviu apenas de trampolim político para um limitado grupo de carreiristas políticos do Psol e agregados, partido se firma nas eleições não como "grande alternativa eleitoral", mas como parte minúscula do aparelho de extrema direita que controla o "processo democrático"
13 de outubro de 2008
Dois destacados dirigentes do Psol expuseram ao longo da semana seus balanços sobre o resultado das eleições de 5 de outubro e, mais particularmente, sobre o desempenho do seu partido que enfrentou sua primeira eleição municipal, desde sua criação em 2005.
Os dois expressam posições diferentes dentro do Psol: Plínio Arruda Sampaio, da sua minoritária ala esquerda (em entrevista ao jornal Brasil de Fato) e Chico Alencar, deputado e ex-candidato a prefeito do Rio de Janeiro, integrante da ala direita, majoritária no comando psolista (em mensagem eletrônica, enviada por seu gabinete parlamentar).
No fundamental ambos apresentam um balanço profundamente negativo do resultado eleitoral do partido, da evolução da esquerda e da própria situação política de um modo geral. Segundo eles o cenário estaria marcado por "uma vitória monstruosa da direita e uma derrota monumental da esquerda" (Plínio Arruda) depois de uma campanha em que "o pior cenário revelou-se assim mesmo: como o pior cenário para nós" (Chico Alencar).
O pequeno burguês, em geral, individualista, "analisa" a realidade do seu restrito ponto de vista, do seu destino particular, generalizando a sua situação e o seu ponto de vista como tendo caráter geral, apresentando profundas limitações para ver além das aparências e das suas próprias ilusões. Como "primos pobres" da burguesia, possuem aspirações semelhantes a esta, sem ter, contudo, os mesmos recursos para torná-las realidade. Desse ponto de vista, as "análises" de um sem número de "analistas" pequeno burgueses de "direita" e de "esquerda" não têm maior relevância por refletirem o pensamento da classe dominante, ou a forma como a burguesia quer que a maioria da população enxergue a "realidade".
No caso dos dirigentes do Psol, a importância está em que suas posições influenciam uma quantidade de ativistas por se apresentarem como militantes da esquerda cuja trajetória supostamente estaria dedicada à luta pela transformação da sociedade no sentido socialista (como está inscrito, formalmente no nome de seu partido).
O que podia se esperar do Psol?
O Psol debutou nas eleições, em 2008 (já com o apoio do PSTU) com sua candidata recebendo enorme apoio dos setores mais reacionários da burguesia, ou seja, das máquinas eleitorais burguesas. Enquanto a candidatura operária e socialista do PCO à presidência era cassada, o Psol era beneficiado por uma mudança reacionária na utraconservadora legislação eleitoral que assegurava ao partido (por ter parlamentares no momento da eleição) ter acesso aos debates eleitorais, dos quais o PCO e outros sem parlamentares são excluídos.
Como no Congresso Nacional, quanto mais direitistas eram as posições do partido nas eleições, mais destaque ganhava nos meios de comunicação. O partido não mediu esforços: condenou a manifestação dos sem-terra no Congresso Nacional (junto com toda direita); apresentou um projeto de um salário mínimo de fome de R$ 400 (quando o governo Lula propunha R$350); defendeu que o dinheiro do BNDES (oriundo dos impostos pagos pelos trabalhadores) fosse usado para subsidiar as perdas das montadoras, monopólios internacionais que sugam o sangue do País; posicionou-se ao lado do papa Ratzinger e toda a extrema-direita pela condenação criminal (prisão!) de mulheres pelo aborto etc.
Coroando toda esta política direitista, a candidata psolista - que muitos "esquerdistas" chamaram de "nova liderança da esquerda", "expressão das lutas populares" - recebeu um amplo apoio eleitoral da direita burguesa, como no caso do clã Garotinho (PMDB) então no comando do poderoso orçamento do Estado do Rio de Janeiro que garantiu naquele estado sua maior votação nacional (16% dos votos). Evidenciando que o Psol, já naquele momento se lançava como parte do aparelho de direita e mafioso que controla as eleições, o que ficou ainda mais evidente nas eleições deste ano.
A campanha burguesa e reacionária do partido
O Psol participou das eleições em 423 municípios, sendo 22 capitais, lançando quase 3000 candidatos, sendo 286 candidatos a prefeito. Em uma minoria dessas cidades o partido recebeu o apoio do PSTU (em quase todas as cidades em que este tinha alguma organização), sob o rótulo de "frente de esquerda". Suas alianças se estenderam por todas as direções, incluindo partidos da esquerda burguesa e da mais reacionária direita: PT, PCdoB, PDT, PSB, PPS, PV, PSL, PSDC, PTN, PMN e até mesmo o DEM.
Nas cidades em que se apresentou sozinho ou apenas com o apoio do PSTU, como São Paulo e Rio de Janeiro, o que se deu foi que o partido não conseguiu viabilizar alianças com a direita burguesa por conta da aproximação desses partidos com o PT (como em São Paulo) ou pelo lançamento de candidaturas próprias, uma vez que o Psol parecia com poucas possibilidades eleitorais.
O rótulo de "frente de esquerda", nestes e muitos outros casos serviu apenas para dar uma fachada esquerdista a campanhas profundamente reacionárias, de defesa de um programa capitalistas, com candidatos carreiristas que repetiam na campanha os mesmos métodos e política das campanhas eleitorais do PT pelo qual já haviam sido candidatos majoritários com apoio de sua ala direita.
Assim aceitaram recursos de grandes exploradores capitalistas, como Gerdau, em Porto Alegre (RS); defenderam a política de repressão ("segurança") do governo Lula e demais governos burgueses contra a população, usando em seus programas a imagem de Tarso Genro (PT), fizeram da exaltação pessoal dos seus candidatos o principal destaque de suas campanhas ("São Paulo Valente", por exemplo) e abusaram até do obscurantismo religioso como os mais tradicionais partidos da direita (voto em nome da "fé em Deus", apregoava a campanha de Eliomar Coelho, na voz de Heloísa Helena, no Rio de Janeiro). Isso para citar apenas alguns poucos exemplos.
"É duro ver que numa campanha onde erramos pouco conquistamos tão poucos votos", afirma Chico Alencar em seu "balanço", mostrando a consciência de quem faria tudo isso outra vez.
Quem ganhou, quem perdeu?
Enquanto a direita se autoelogia, a esquerda - bem ao estilo do Psol e de outros saudosistas do PT, como PSTU (que defenderam o "PT das origens") - aponta que o problema é que o partido deveria ter lançado mão de uma dose maior de demagogia de esquerda. Segundo Plínio, o Psol "usou o discurso errado, "fez o discurso administrativo"", explicando que "se você, sabidamente pelos Ibopes e pelas pesquisas não tem chance, o eleitor não presta atenção à sua proposta.
Ele tinha que fazer um discurso ideológico político, mas ele não conseguiu sair do formato que a mídia fez para o debate. Os que conseguiram ir mais para a política tiveram resultados um pouco melhores, foram para a faixa dos 4% ou 5%. A Luciana Genro, em Porto Alegre, conseguiu o melhor resultado (9%) porque se engalfinhou no debate político".
Plínio que entende bem do assunto por ter sido candidato das mais tradicionais alas direitas do antigo e diretista Partido Democrata-Cristão e do PT ao governo de São Paulo, explica muito bem qual seria a política correta do Psol para a sua esquerda: tendo chances eleitorais usar um "discurso administrativo", ou seja, apresentar propostas "possíveis" de serem realizadas por uma administração capitalista, que se entenda bem com os patrões e que haja de acordo com a lei, como fizeram Ivan Valente, Chico Alencar e quase todos candidatos do Psol.
Neste primeiro caso, portanto, fazer demagogia de direita. Não havendo "chance" (de acordo com os "ibopes"), fazer um "discurso ideológico", quem sabe falar em socialismo e até mesmo revolução, para "fazer uma média", como ensina Lula. Neste segundo caso, fazer demagogia de esquerda.
O elogio a Luciana Genro, justamente uma das mais direitistas candidatas do Psol (se é que isso era possível em meio a uma legião de candidatos tão direitistas) deixa claro que a "reclamação" da esquerda se limita à questão da quantidade de votos e às possibilidade que isto lhe abre, como setor minoritário do partido que "torcia" (assim como o PSTU) que um bom desempenho eleitoral dos candidatos majoritários da direita lhe rendessem algum ganho eleitoral.
Esta declaração do combativo dirigente do Psol é um verdadeiro retrato ideológico do partido, ao invés de programa, demagogia eleitoral, ao invés de denunciar a compra do partido pela burguesia, elogiar a sua capacidade de conseguir "votos", com apoio das máquinas eleitorais da burguesia.
Não tendo sido possível o ganho eleitoral, só resta a esta "esquerda", da mesma forma que à "direita" resignar-se: "o resultado era o esperado, uma vitória monstruosa da direita e uma derrota monumental da esquerda", afirma Plínio; "Claro que esperávamos mais", lamenta Chico Alencar.
Ambos, como de costume, não vêem então outro caminho que não seja culpar o povo: "consciências anestesiadas, despolitização, individualismo galopante, uso da máquina administrativa, abuso do poder econômico, candidaturas aparentemente similares, de "esquerda"", lamenta-se o deputado carioca; em total sintonia com o ex-deputado paulista para quem "dá para atribuir ao Bolsa Família, ao Prouni e a toda essa mistificação assistencial". Como se descobrissem, agora, que as eleições são, em geral, na sua essência, e, precisamente nos períodos de refluxo das lutas das massas, um processo de fabricação de um resultado "democrático" por meio da mobilização de esquemas eleitorais sustentados com recursos controlados pela burguesia, em primeiro lugar, as verbas do orçamento público.
Para superar o fracasso da política oportunista... mais oportunismo
Diante do fracasso político - não apenas eleitoral - dessa estratégia que não abre qualquer perspectiva para a classe operária e a maioria da população defender seus interesses diante da crise histórica do capitalismo mas apenas serve aos interesses de um punhado de parlamentares carreiristas a serviço da burguesia, a "esquerda" do Psol propõe doses ainda maiores do mesmo "remédio", que serviu aos interesses da direita. Segundo Plínio Arruda Sampaio, como "as alianças beneficiam a direita.
Os partidos de esquerda devem se aliar entre si, porque toda vez que se aliam com o outro lado estão somando para o outro lado". Assim o ideal seria neutralizar totalmente a esquerda do movimento operário propondo uma "unificação" da esquerda e intensificando a demagogia esquerdista no terreno eleitoral, ou seja, da manipualção das massas, obviamente, sob a liderança do Psol ou de outro partido conservador da pequena burguesia ou mesmo da burguesia.
A direita do Psol e toda "frente de esquerda" - como toda a burguesia - procuraram disseminar a idéia de que o voto é o principal e único instrumento possível para expressar a vontade da população ("seu voto pode mudar a cidade" estampava os materiais da "frente de esquerda" nas eleições do Rio de Janeiro) e que isto, inclusive, era possível de ocorrer já nestas eleições totalmente dominadas pelas máquinas burguesas ("agora é a nossa vez, vote 16", clamava em certas cidades os candidatos do PSTU).
Mesmo depois do fiasco eleitoral, de eleições que tiveram como resultado no Psol o fortalecimento da ala mais direitista tradicional do partido e dos que "alugaram" sua legenda (os vereadores eleitos que são ou da ala direita do partido ou elementos saídos de partidos de direita que ingressaram recentemente no partido para utilizá-lo em suas carreiras políticas iniciadas em partidos burgueses como PSDB, PDT, PMDB etc.), mesmo depois de tudo isso, a conclusão do dirigente da principal ala da "esquerda" do Psol é que o problema estaria, principalmente, com as massas que estariam sendo manipuladas pela direita sem "prestar atenção" às maravilhosas "propostas" vazias e demagógicas da esquerda para efeito de marketing eleitoral, diante do que seria necessário não derrotar e substituir estas direções, mas "conscientizar a massa e organizar a massa", para tanto aponta o caminho de "participar das lutas do povo, aproveitando essas lutas construir o "poder popular fora do clientelismo político", ou seja, reeditar a ilusão disseminada pelo PT de um governo burguês, dentro do regime burguês, mas "combativo". Isso em resposta à pergunta de Brasil de Fato sobre como "Como criar as mesmas condições no Brasil para que as eleições sejam, um dia, um instrumento de transformação?".
Cada vez mais à direita
Longe de ter se constituído em um desvio de conduta, em contradição com princípios "de esquerda" (inexistentes no Psol) ou uma evolução direitista de um partido já dominado pela burguesia, o que o Psol e sua "frente de esquerda" expressam nas eleições é o desenvolvimento lógico de um partido completamente dominado desde sua fundação por elementos carreiristas, políticos burgueses profissionais (como assinalamos desde sua fundação).
Sua integração (em diferentes níveis) a setores regionais ou minoritários da burguesia, alguns com sólidos vínculos nacionais com o que há de pior da política burguesa (como o PDT da Força Sindical, que controla o Ministério do Trabalho, o PSB, de Ciro Gomes ou o PV, de Sarney Filho e Gabeira, aliado do PSDB) é parte de um aspecto central e decisivo para a burguesia na atual etapa de crise e decadência histórica do capitalismo, a política de frente popular, ou seja, atrelamento de setores do movimento operário (mesmo os minoritários e reacionários) à burguesia e seu regime político, no caso do PT para servir como muro de arrimo para uma parede que já não se sustenta, no caso do Psol para fachada da mesma casa em decomposição.
No caso dos grandes partidos e organizações da esquerda, com real controle sobre as organizações operárias, esse vínculo se estabelece com sua participação direta nos governos capitalistas, nas negociações em grandes fóruns nacionais de pactos e acordos contra a classe operária, na sustentação das campanhas dos "esquerdistas" por milionárias contribuições das maiores corporações capitalistas.
No caso dos pequenos partidos da esquerda centrista (Psol, PSTU), controladores de sindicatos menores e em muito menor número e da suas "centrais" minoritárias (Conlutas e Intersindical) o atrelamento se dá com uma espécie de segunda ou terceira linha da burguesia que serve como camuflagem ou sublegenda da burguesia.
Trata-se de uma versão caricatural da política do PT. No final da década de 80, o PT, 10 anos após sua fundação, em sua quarta eleição, realizou pela primeira vez em sua história uma aliança nacional com um partido burguês minoritário, lançando o senador Paulo Bisol, do PSB (ex-PMDB, ex-PSDB), como candidato à vice de Lula, na chamada Frente Brasil Popular, contra o que se insurgiu apenas a, então corrente Causa Operária, que - por isso - acabou expulsa do PT.
O Psol nem saiu das fraldas (e talvez nunca saia), não sabe andar, mas "engatinha" imitando os passos traidores e corruptos da direção petista; se conseguir andar não poderá ir noutra direção que não seja o da contra-revolucionária política da esquerda burguesa.